"Temos medo da própria ideia de sermos suspeitos"

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Guillaume Musso

Escritor

Nasceu em 1974, em Antibes

Já escreveu três livros, os quais, só em França, venderam 1,5 milhões de exemplares

É professor de Economia no ensino secundário

Gosta de Cesária Évora, das "canções suaves de Cesária Évora", em contraponto à voragem das imagens televisivas, e conhece bem o nosso país porque a sua companheira de alguns anos é lusodescendente. Apesar dos seus trinta e poucos anos, Guillaume Musso já escreveu três livros e vendeu mais de um milhão de exemplares.

Em Salva-me, aborda a questão do terrorismo, na perspectiva de, após o 11 de Setembro, todos nos termos tornado "suspeitos" aos olhos dos americanos. À partida, somos todos "Juliettes Beaumont"?

Há um medo generalizado. Nos EUA, mas também em qualquer outra parte do mundo. Tem-se medo do terrorismo e medo da própria ideia de podermos ser suspeitos de alguma coisa, apesar de não termos nada de recriminável. E esse medo é muito visível em Nova Iorque, a cidade onde tudo pode acontecer.

Há um funcionário americano que quer dar "pequenas lições" aos "traidores franceses", personificados em Juliette. Nesse sentido, define as 72 horas de prisão preventiva como "tempo para se divertir". A América está a vingar-se da Europa pela falta de apoio à invasão do Iraque?

Pode dizer-se que, desde que a França se dessolidarizou da invasão do Iraque, tem havido uma sucessão de pequenas medidas de retaliação. Lembro-me, por exemplo, da ideia de rebaptizar as french fries (batatas fritas) e de passar a chamá-las liberty fries... Uma coisa muito estúpida, a meu ver.

Quando se referiu a uma apresentadora da televisão dos EUA como portentosa morena "monicalewinskada" estava a imaginar um novo tipo físico de mulher?

Em primeiro lugar, devo dizer que adoro o presidente Clinton e penso que tudo aquilo a que foi submetido foi humilhante. Li todos os seus livros. Por isso, quando falo de uma mulher "monicalewinskada", falo apenas de uma mulher parecida com Monica Lewinsky. Apenas (risos).

A páginas tantas, denuncia a "dramatização da informação", a tendência para o "choradinho". Prefere-a mais racional, mais fria?

Hoje, quando se hierarquiza a informação, aposta-se cada vez mais nas emoções. Dramatiza-se, de facto, a forma de tratar os acontecimentos através das imagens. Por isso, em casa, não tenho televisão. Melhor, tenho, mas não está configurada para receber canais, só para ver DVD, vídeos. Leio muito - livros, jornais - e ouço rádio. E, claro, consulto a Internet.

Acredita em Deus?

Bom... Fui baptizado, fiz a comunhão, essas coisas, mas não sou praticante. Interesso-me, é verdade, pelo lado espiritual da religião, de todas as religiões, pela espiritualidade. Sobretudo desde que, aos 23 anos, tive um acidente grave, que me colocou entre a vida e a morte.

Isso fê-lo acreditar em Deus, num deus qualquer? Pegando nas personagens do seu livro, é mais Juliette ou mais Sam?

Depende dos dias. Mas sou mais Juliette. Também Sam, um pouco, porque, no fim do livro, está mais disposto a aceitar a ideia de Deus.

Lê-se Salva-me e parece que já se está a ver o filme. Esta escrita cinematográfica é acidental ou provocada?

Eu gosto muito de cinema, em geral. De cinema americano, em particular. De cinema americano dos anos 40, ainda mais em particular. Daquela ideia de redenção, sacrifício e libertação que transmitem. Antes de me lançar na literatura, li muitos livros de cinema, nomeadamente manuais sobre como fazer cenários. Para criar suspense, gosto de escrever textos que não só se lêem como se visualizam imediatamente. Agrada-me a ideia de ler um livro como se vê um filme. De facto, tenho esta paixão pelo cinema, mas também, até porque sou filho de uma bibliotecária, leio muito. Na adolescência, devorei os clássicos - Tolstoi, Proust... Agora, gosto muito de Philip Roth, John Irving, John Grisham.

Michel Houellebecq?

Sim, claro, leio tudo sem nenhuns complexos, da mesma forma que, de dia, posso almoçar num McDonald's e, à noite, jantar num restaurante fino. Não sou exclusivista.

Aos que catalogam os seus livros de literatura popular, o que lhes responde?

Também não tenho complexos em relação a isso. Fico muito contente por ter leitores, tantos leitores, sobretudo jovens, mas não só, em França e noutros países. Agatha Christie e Stephen King também se podem incluir na chamada literatura popular e isso não lhes retira mérito. Se escrever três livros e vender 1,5 milhões de livros é ser popular, então eu sou popular.

E Depois e Salva-me foram os seus dois primeiros livros e já estão editados em Portugal. Já tem um terceiro?

Sim, chama-se Seras-tu là?, e é também uma história de amor, com muito sobrenatural. O argumento remete, novamente, para o cinema. É tipo Regresso ao Futuro. Fala-nos sobre a possibilidade de voltar atrás, voltar atrás fisicamente e corrigir um erro.

Pode desvendar um pouco mais?

É a história de um homem, atingido por cancro do pulmão, que sabe ter pouco tempo de vida, que está condenado. Um homem que tem a oportunidade de voltar atrás e encontrar-se com a única mulher que amou, voltar a uma época em que tudo ainda é possível. É, no fundo, sobre o tempo que passa, os remorsos....

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